Ela era uma menina de onze anos. Havia perdido a mãe muito nova e, desde então, sua família teve de se separar, indo as irmãs mais novas para casa de parentes pobres enquanto ela passaria a morar com famílias desconhecidas em troca de trabalhos que pudesse realizar. Aqui ela deveria ajudar uma senhora nos afazeres domésticos, costurando bainhas e lavando louças, sendo obrigada a terminar tudo antes de ir dormir, mesmo quando seus 'patrões' já descansassem. O marido da senhora era um feirante e reservava um pequeno cômodo da casa para dedepositar suas mercadorias. Ali, entre cachos de bananas e abóboras podres, ela estendia uma esteira de palha e dormia.
Certa noite a senhora, estando grávida, disse que tinha o desejo de comer laranjas do sítio de seu tio, que era um pouco distante dali. Exigiu então que a menina saísse imediatamente em busca das laranjas e assim ela o fez. Esse tio, por medidas de segurança, sempre soltava seus cachorros à noite e a menina sabia disso, mas precisava cumprir a tarefa. Então passou rapidamente por entre as tábuas e o arame farpado da cerca e, no escuro, tateou pelos frutos. Ela ouvia os cães latindo ao longe e se apressou por colher um bocado das laranjas e logo já estava fora do cercado, caminhando de volta pra casa. Infelizmente, por não poder ver quais frutos lhe vinham nas mãos, a menina só trouxe para a senhora laranjas verdes. Irritada com o fracasso da garota, a mulher juntou suas trouxas e a pôs imediatamente para fora da casa.
Sozinha, a menina tentou voltar para casa. Chegando lá, soube que seu pai havia se mudado há pouco tempo para um pensionato. Com vagas informações sobre o local, ela, que bem conhecia Bangú, se dirigiu para a rua indicada e buscou com olhar atento qualquer construção em que seu pai pudesse estar. A esta altura já estava desesperada, cansada e chorando. Então ela avistou na entrtada de uma vila um degrau alto e resolveu se sentar, entrtegando-se ao choro. Foi quando surgiu um homem, que se aproximou e perguntou: "O que houve? Por que você está chorando?", e ela: "Estou procurando meu pai, ele está morando num pensionato mas não o encontro.". "Mas como ele é?", perguntava o homem e ela: "eu não sei... o nome dele é João, João Moreira...". À menção do nome o homem identificou "Ah, mas tem um João Moreira morando no mesmo quarto que eu!", "É ele! É ele!".
Assim a menina conseguiu encontrar a nova moradia de seu pai. Ele não estava lá quando ela chegou, mas o local era o certo e por ali ela pernoitou para, no dia seguinte, seu pai sair novamente em busca de um novo 'emprego'.
Embora as atitudes do pai da menina não me parecessem muito admiráveis, ela sempre diz que ele foi um pai exemplar. A menina era minha avó e talvez seja até muito injusto eu estar contando aspectos tristes da vida dela já que ela própria preferiu revelar muito pouco deles ("para não traumatizar os filhos") até bem recentemente, quando decidimos pôr em prática a idéia da biografia.